segunda-feira, 28 de março de 2011

O Assalto

"Quando a empregada entrou no elevador, o garoto entrou atrás. Devia ter uns dezesseis, dezessete anos. Desceram no mesmo
andar. A empregada com o coração batendo. O corredor estava escuro e a empregada sentiu que o garoto a seguia. Botou a chave
na fechadura da porta de serviço, já em pânico. Com a porta aberta, virou-se de repente e gritou para o garoto:
— Não me bate!
— Senhora?
— Faça o que quiser, mas não me bate!
— Não, senhora, eu…
A dona da casa veio ver o que estava havendo. Viu o garoto na porta e o rosto apavorado da empregada e recuou, até
pressionar as costas contra a geladeira.
— Você está armado?
— Eu? Não.
A empregada, que ainda não largara o pacote de compras, aconselhou a patroa, sem tirar os olhos do garoto:
— É melhor não fazer nada, madame. O melhor é não gritar.
— Eu não vou fazer nada, juro! — disse a patroa, quase aos prantos. — Você pode entrar. Pode fazer o que quiser. Não precisa
usar de violência.
O garoto olhou de uma mulher para a outra. Apalermado. Perguntou:
— Aqui é o 712?
— O que você quiser. Entre. Ninguém vai reagir.
O garoto hesitou, depois deu um passo para dentro da cozinha. A empregada e a patroa recuaram ainda mais. A patroa
esgueirou-se pela parede até chegar à porta que dava para a saleta de almoço. Disse:
— Eu não tenho dinheiro. Mas o meu marido deve ter. Ele está em casa. Vou chamá-lo. Ele lhe dará tudo.
O garoto também estava com os olhos carregados. Perguntou de novo:
— Este é o 712? Me disseram para pegar umas garrafas no 712.
A mulher chamou, com a voz trêmula:
— Henrique!
O marido apareceu na porta do gabinete. Viu o rosto da mulher, o rosto da empregada e o garoto e entendeu tudo. Chegou a
hora, pensou. Sempre me indaguei como me comportaria no caso de um assalto. Chegou a hora de tirar a prova.
— O que você quer? — perguntou, dando-se conta em seguida do ridículo da pergunta. Mas sua voz estava firme.
— Eu disse que você tinha dinheiro — falou a mulher.
— Faço um trato com você — disse o marido para o garoto — dou tudo de valor que tenho em casa, contanto que você não
toque em ninguém.
E se as crianças chegarem de repente? Pensou a mulher. Meu Deus, o que esse bandido vai fazer com as minhas crianças? O
garoto gaguejou:
— Eu… eu… é aqui que tem umas garrafas pra pegar?
— Tenho um pouco de dinheiro. Minha mulher tem jóias. Não temos cofre em casa, acredite em mim. Não temos muita coisa.
Você quer o carro? Eu dou a chave.
Errei, pensou o marido. Se sair com o carro, ele vai querer ter certeza de que ninguém chamará a polícia. Vai levar um de nós
com ele. Ou vai nos deixar todos amarrados. Ou coisa pior…
— Vou pegar o dinheiro, está bem? — disse o marido.
O garoto só piscava.
— Não tenho arma em casa. É isso que você está pensando? Você pode vir comigo.
O garoto olhou para a dona da casa e para a empregada.
— Você está pensando que elas vão aproveitar para fugir, é isso? — continuou o marido. — Elas podem vir junto conosco.
Ninguém vai fazer nada. Só não queremos violência. Vamos todos para o gabinete.
A patroa, a empregada e o Henrique entraram no gabinete. Depois de alguns segundos, o garoto foi atrás. Enquanto abria a
gaveta chaveada da sua mesa o marido falava;
— Não é para agradar, mas eu compreendo você. Você é uma vítima do sistema. Deve estar pensando, “Esse burguês cheio da
nota está querendo me conversar”, mas não é isso não. Sempre me senti culpado por viver bem no meio de tanta miséria. Pode
perguntar para a minha mulher. Eu não vivo dizendo que o crime é um problema social? Vivo dizendo. Tome. É todo o dinheiro que
tenho em casa. Não somos ricos. Somos, com alguma boa vontade, da média alta. Você tem razão. Qualquer dia também
começamos a assaltar para poder comer. Tem que mudar o sistema. Tome.
O garoto pegou o dinheiro, meio sem jeito.
— Olhe, eu só vim pegar as garrafas…
— Sônia, busque as suas jóias. Ou melhor, vamos todos buscar as jóias.
Os quatro foram para a suíte do casal. O garoto atrás. No caminho, ele sussurrou para a empregada:
— Aqui é o 712?
— Por favor, não! Disse a empregada, encolhendo-se.
Deram todas as jóias para o garoto, que estava cada vez mais embaraçado. O marido falou:
— Não precisa nos trancar no banheiro. Olhe o que eu vou fazer.
Arrancou o fio do telefone da parede.
— Você pode trancar o apartamento por fora e deixar as chaves lá embaixo. Terá tempo de fugir. Não faremos nada. Só não
queremos violência.
— Aqui não é o 712? Me disseram para pegar umas garrafas.
— Nós não temos mais nada, confie em mim. Também somos vítimas do sistema. Estamos do seu lado. Por favor, vá embora!
A empregada espalhou a notícia do assalto por todo o prédio. Madame teve uma crise nervosa que durou três dias. O marido
comentou que não dava mais pra viver nesta cidade. Mas achava que tinha se saído bem. Não entrara em pânico. Ganhara um
pouco da simpatia do bandido. Protegera o seu lar da violência. E não revelara a existência do cofre com o grosso do dinheiro,
inclusive dólares e marcos, atrás do quadro da odalisca."

(Luis Fernando Veríssimo)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Total de visualizações de página