domingo, 13 de junho de 2010

Análise do filme “Anjos do Sol”

Tentarei fazer uma breve análise de alguns personagens do filme “Anjos do Sol” a partir do referencial teórico do Behaviorismo Radical. Entretanto a presente construção, é bom dizer, é hipotética e incompleta devido mais á minha falta de experiência e ao tipo de material a ser analisado que a problemas teóricos. Antes de começarmos a análise propriamente dita, falemos de alguns aspectos teóricos e técnicos.
A análise comportamental (clínica), que tem como referencial o behaviorismo radical, privilegia a interação do sujeito com o ambiente, onde o primeiro age sobre o segundo, que por sua vez modifica o primeiro. A forma mais importante de interação com o ambiente é através de comportamentos operantes, onde os comportamentos são selecionados pelo ambiente a partir de sua funcionalidade, de suas conseqüências. Os principais meios de seleção são: reforçamento positivo (a ação do sujeito gera um estímulo reforçador, o que aumentará a probabilidade de ocorrência dessa ação); reforçamento negativo (a ação do sujeito elimina um estímulo aversivo, aumentando a probabilidade de ocorrência desse comportamento); punição positiva (a ação do sujeito leva a um estímulo aversivo, o que diminui a probabilidade de ocorrência desse comportamento); e punição negativa (a ação leva a retirada de um estímulo reforçador, diminuindo a probabilidade de ocorrência desse comportamento). É nessa análise que estamos interessados. Quando se pergunta porque uma pessoa humilha e explora outra, que não pode se defender, dizer que ela o faz por ser “sádica” não responde a pergunta, já que “sádico” é uma classificação arbitrária para quem apresenta certa classe de comportamentos, assim a pergunta permanece com outra construção: por que ele é “sádico”? Na análise funcional (comportamental) a resposta será buscada na interação sujeito-ambiente, em sua história de condicionamento, nas variáveis ambientais responsáveis pela aquisição e manutenção desse comportamento e não em construtos hipotéticos (mente, caráter e similares). Passemos agora a análise de alguns personagens apresentados no filme “Anjos do Sol”.
O aliciador exerce tal papel, talvez, porque em sua história de condicionamento (aprendizagem) ele não tenha sido apropriadamente treinado nos conceitos de “certo” e “errado”, os comportamentos (meios) que poderia utilizar para conseguir determinados reforçadores (fins), tais como dinheiro, ‘status’, etc. Além disso, no contexto em que está inserido talvez ele não consiga reforçadores semelhantes com comportamentos mais “honestos”, ou outros comportamentos sejam punidos com estímulos aversivos (punição positiva) ou com a retirada de reforçadores importantes (punição negativa) ou simplesmente não são adequadamente reforçados. A isso soma-se o fato de haver pouca ou nenhuma (ameaça de) punição.
Os usuários do prostíbulo freqüentam-no pelo fato de que tal comportamento é aceito (talvez até incentivado) na comunidade a que pertencem (“carne fresca é o que há!”). Além dos reforçadores existentes não há eventos aversivos contingentes a essa conduta.
O “cafetão” exige uma análise um tanto mais complexa e mais extensa: o personagem tem um papel mais importante na trama, além de várias classes de comportamento. O sadismo com que ele trata as moças de seu “estabelecimento” pode ser uma repetição de padrões comportamentais observados em sua vida pregressa (talvez na infância, com os pais ou cuidadores, ou professores) processo conhecido como modelação (imitação). Além disso, tais comportamentos foram e continuam a ser contingentes a reforçadores importantes, tais como respeito, atenção, além de outros reforçadores condicionados e reações fisiológicas (como prazer). Devido, provavelmente, ao fato de, em sua história, ele não ter sido (adequadamente) treinado em conceitos de “certo” e “errado”, em comportamentos empáticos, ele não é capaz de sentir culpa pelo que faz ou mesmo considerá-lo errado. O contexto em que se encontra também impede que ele se considere criminoso ou algo semelhante. Ali ele não só é altamente reforçado como também não há sequer ameaça de punição. Esse estado de coisas não só favorece a manutenção desses comportamentos como impedem (ou atrapalham) a mudança e o surgimento do “desejo de mudar”.
Finalmente, na protagonista do filme pode-se observar a mudança comportamental, o processo de aquisição de novos comportamentos e a extinção de padrões antigos de comportamento (que deixaram de ser funcionais devido à mudança de ambiente). A partir do momento em que ela sai de casa seu repertorio comportamental se torna insuficiente para lidar com o novo ambiente e os estímulos que lhe são apresentados. Seus comportamentos antigos deixam de ser reforçados (e por vezes são punidos) o que leva a um processo de extinção. Ao mesmo tempo ela começa a exibir novos comportamentos e o ambiente vai selecionando os que são funcionais (reforçando-os) e eliminando os não funcionais (não reforçando-os).
Nesse ponto é interessante observar o papel da punição no esquema geral de aprendizagem. A punição diminui a freqüência de um dado comportamento, mas não o elimina, apenas suprime o comportamento punido, sendo ele apresentado novamente (sob outras condições ou depois de algum tempo). Sabendo disso, analisemos o efeito do exemplo de punição apresentado no filme. Em seu primeiro dia no prostíbulo a protagonista tentou fugir e foi severamente castigada. No entanto, tempos depois ela tentou nova fuga, dessa vez tendo sucesso. O máximo que a punição pôde fazer foi adiar a nova tentativa.
Outra coisa a se observar é a forma de condicionamento utilizado: baseado predominantemente em coerção (reforçamento negativo e punição, positiva e negativa). Este esquema permite a aprendizagem, mas não faz com que o sujeito “goste de fazer o que faz”.
Pra finalizar, observamos que no fim do filme a moça já tinha repertório suficiente para lidar com as situações em que se via (em certos aspectos semelhantes à situação inicial).


Referências:
de-Farias, A.K.C.R. – Análise Comportamental Clínica, 2010.
Lundin, R.W. – Personalidade: uma Análise do Comportamento, 1973.
Skinner, B.F. – Ciência e Comportamento Humano, 1953.

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