I
7 horas da manhã. Lá vai João Ninguém mais um dia, nesta rotina que parece sem fim. Acordar cedo já não lhe é tão difícil. Também, depois de quase um ano sem emprego, este trabalho vale a pena, mesmo que perca toda sua vida durante sua jornada de trabalho, assim como seu pai, seu avô, seu bisavô... Ele já é adulto, sabe de sua responsabilidade, sabe que sua vida não é fácil, mas está pronto a aceitar. Não é vidente, mas conhece o seu futuro, sabe que trabalhará a vida inteira para depois, quando estiver velho e doente, se aposente, recebendo uma mixaria, e morrendo pouco depois...
Ele sabe disso, e talvez por saber, sua força vital se perde dia a dia. Não tem mais os sonhos de outrora. Perde-se na rotina, na mesmice. Parece viver apenas quando dorme, e parece dormir quando acordado. A vida não parece mais lhe surpreender. Cumprimenta a todos com seu típico sorrisinho amarelo, sempre apático.
João é o quinto filho de dona Maria das Dores Ninguém e seu José Manuel Ninguém (Zé Mane, pr’os amigos), sendo que um morreu antes de completar um ano de idade. Nasceu em uma família pobre, cresceu sem ter muitos amigos, sem ter uma vida social ativa, parou de estudar sem concluir o ensino fundamental, por falta de recursos e necessidade de trabalhar. Mas seu sonho era estudar e se formar em direito, o que jamais pôde fazer. Com o passar do tempo, foi se acostumando com essa vida, aceitando essa realidade, se acomodando. Agora aos 25 anos, não tem mais sonhos, nem planos, apenas vegeta...
II
Ao sair de casa, como todos os dias, pega o ônibus que está sempre lotado, mas, por sorte, dessa vez encontra um banco vago, onde se senta. Pouco depois, entra uma jovem que se senta ao seu lado, uma garota bonita, de uns 22 anos, mas ele nem notou sua presença, estava perdido em seus pensamentos. Ela lhe pergunta algo e ele responde mecanicamente. Daí a pouco era hora de descer, caminhar uns 15 minutos até chegar ao trabalho, e ficar lá até às 18 h. para então fazer o caminho inverso. Caminhou até o ponto, onde esperou o ônibus, quando este chegou, ele entrou e sentou-se, ocasionalmente no mesmo lugar, ao lado da mesma jovem de antes. Mas dessa vez ele a notou, e tentou puxar assunto, conseguiu, mas uma conversa fria e superficial, típico dessas ocasiões. Depois de meia hora de viagem ela desceu. Quando chegou em seu ponto, ele também desceu. Ao chegar em casa tomou um banho, jantou e foi dormir.
No outro dia quando acordou, lembrou-se do dia anterior, ou melhor, da volta pra casa e da jovem do ônibus. Tentou se lembrar se já tinha visto-a antes, mas não conseguiu ter certeza, afinal ele nunca conversava com ninguém nem mesmo reparava quem entrava ou saía. Depois se lembrou que não sabia o nome dela, nem lhe passou pela cabeça perguntar. Levantou-se, tinha que tinha ir pro trabalho e não podia ficar perdendo tempo pensando na vida. Saiu no horário de sempre, pegou o ônibus e se sentou. Pra sua surpresa, pouco tempo depois, a garota do dia anterior entra e senta-se ao seu lado. Cumprimentam-se, e começam a conversar, então ele se lembra de lhe perguntar seu nome. Ela diz se chamar Ana, ao que ele faz um elogio, dizendo ser um belo nome, ela agradece e pergunta o nome dele também, ele responde esperando um elogio também, mas esse elogio não vem, e os dois continuam conversando. E assim foi, todos os dias, durante umas duas semanas, os dois se sentavam juntos no ônibus e ficavam conversando, tanto na ida quanto na volta.
III
Numa segunda feira, ele entra no ônibus, já contando encontrá-la alguns minutos depois, e conversarem até que ele desça, mas dessa vez não foi assim, ela não entrou no ônibus. Ele achou estranho, afinal era a primeira vez que isso acontecia em duas semanas. Depois começou a ficar preocupado: “Será que ela está doente?”, “Será que foi demitida?”, “Por que não veio hoje?”, e assim por diante. Não conseguia entender nem aceitar a sua ausência. Na volta foi a mesma coisa.
No outro dia ela também não apareceu, o que aumentou ainda mais sua preocupação. Apesar de não ter motivo pra se preocupar com ela, de ficar triste por ela não ter aparecido nesses dois dias, afinal de contas eram no máximo companheiros de ônibus, ainda assim ficou. Nesse dia não consegui trabalhar direito, pois ela não lhe saía da cabeça. Quando chegou só tomou banho e foi direto dormir, nem sequer jantou. E assim foi, durante uma semana ela não apareceu, e ele ficou cada vez mais preocupado, e profundamente arrependido de não ter pego o endereço dela, ou pelo menos o telefone, para saber notícias. “Afinal, íamos e voltávamos juntos todos os dias, e, de repente, ela some. Tinha mesmo que estar preocupado.”
Na outra semana, porém ela reaparece, voltando a se sentar junto dele. Ele não resiste e pergunta a ela o motivo de sua ausência na semana anterior.
_Eu peguei uma gripe no fim de semana passado, disse ela, estava ardendo em febre, mas agora estou melhor, bem melhor.
_Eu fiquei preocupado. Fico feliz em saber agora está melhor. Pensei em ir a sua casa, ou te ligar pra saber o que tinha acontecido, mas me lembrei que não sabia nem seu endereço nem seu telefone.
_É verdade, eu também não sei o seu...
Então trocaram telefone e endereço.
Nesse dia ele trabalhou satisfeito, comeu com alegria e dormiu como uma criança.
IV
No fim de semana ela liga pra ele, e o convida para ir a casa dela para conversarem e depois, talvez, saírem. Marcaram a hora e se despediram. Na hora marcada, ele chegou e ela o recebeu bem e o convidou a entrar.
Ele entrou, sentaram-se na sala e conversaram durante horas, sobre vários assuntos. Contaram suas vidas um pro outro, seus sentimentos, e esperanças. Ele até então não tinha esperança em nada, mas nesse momento desejou ter, e inventou algumas. Depois saíram um pouco, passearam, comeram alguma coisa e assistiram o pôr-do-sol.
Quando ele voltou pra casa, percebeu que estava apaixonado, pela primeira vez na vida. Ficou pensando no que deveria fazer, se deveria se abrir com ela, contar o que sentia e tentar alguma coisa, ou se devia ficar calado e tentar sufocar esse sentimento. Depois deitou-se pensando nela, dormiu e sonhou com ela.
No domingo, ele acordou resoluto, iria contar tudo. Ligou pra ela marcou um lugar para se encontrarem. Lá, depois de preparar terreno, ele disse a ela que estava apaixonado, e a pediu em namoro. Ao que ela também confessou estar apaixonada, e, obviamente, aceitou o pedido.
V
Agora ele começa a sonhar novamente, parece que o amor, esse monstro de duas faces, uma da mais pura beleza, e outra de horrores, lhe mostrou, até agora, apenas uma face, a mais bela. Sua esperança renasce, sua vida passa a ter um sentido, tudo lhe parece mais belo, até o emprego que antes detestava, agora não lhe parece tão ruim. Agora ele começa a juntar dinheiro pra, quem sabe, poder casar, apesar de ainda ser cedo pra se pensar nisso, mas não custa nada sonhar um pouco.
E à medida que o tempo passa, esses sonhos se tornam mais constantes, e deixam de ser apenas dele, e passa a ser dos dois. Após alguns meses de namoro, os dois planejam uma família, a casa, não muito grande, mas arrumada e limpa, os filhos, talvez dois, um casal, pensam nisso todos os dias, brincam com as possibilidades, sempre otimistas, e de tanto pensar nisso, resolvem marcar o casamento para dali a seis meses. Nesse meio tempo pretendem juntar o dinheiro necessário, trocar alguns móveis e etc.
Há uma grande expectativa no espírito de João, ele jamais se sentiu tão feliz, tão realizado, agora ele não mais vê o amanhã como “uma repetição mais sombria do ontem”. Tanta coisa mudou depois daquele dia no ônibus, justo o ônibus que tanto detestava, tanta coisa em tão pouco tempo. Ele só quer aproveitar e planejar o futuro, no qual tem muita esperança, pois, assim como conheceu o amor de sua vida de forma inesperada, sua vida pode mudar ainda mais, e para melhor.
VI
Já se passaram quase seis meses e a data do casamento se aproxima, e em estado de êxtase os dois terminam os preparativos. Na antivéspera à tarde João vai pra casa descansar. Estiveram muito ocupados nesse dia, mal puderam conversar, e combinaram de conversar a noite, quando Ana ligaria para ele. Ao chegar em casa João toma um banho e vai para a sala esperar o telefonema, que não demora muito. Ele vai atender esperando que fosse Ana, mas não era, era do hospital da cidade, avisando que Ana havia sido internada lá aquela tarde após sofrer um ataque convulsivo, e solicitaram que ele fosse até lá.
Ao chegar ao hospital, lhe explicaram que quando ela havia sido internada ela não estava mal, mas estava inconsciente, devido a demora no socorro, e que depois de chegar sofreu um parada cardíaca, que agravou muito seu estado, ela estava sendo medicada, mas permanecia em coma. Ele quis vê-la, e pouco depois estava ao lado dela, deitada naquela cama de hospital, imóvel. Ao se dar conta do que estava acontecendo, sentiu um desespero que dominou todos seus sentidos. Essa noite ele passou no hospital, ao lado dela, em estado de choque, sem falar com ninguém. De manhã, quando as enfermeiras começaram a passar perto dele, ele, vencendo a letargia, pergunta a uma delas o estado de Ana, e ela diz que é grave, mas estável. Nessa mesma tarde, depois de duas paradas cardíacas, Ana morre.
VII
Três dias se passaram desde a morte de Ana, seu corpo já foi enterrado, as orações já foram feitas, mas João ainda não aceitou sua morte. Jamais aceitará essa traição do destino. Num momento de desesperança lhe dá um motivo pra viver, pra acreditar e lutar, para mais tarde tirá-lho abruptamente. Jamais lhe passara pela cabeça que isso pudesse acontecer. Não foi apenas Ana que morreu, junto com ela morreram seu amor, sua esperança, sua sanidade, sua vida...
À medida que o tempo passa João se tona mais decadente. Não mais trabalha, não sai mais de casa, não faz mais nada além de ficar em casa deitado em sua cama ou no sofá, inerte, esperando sua vez de se despedir...
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