Era uma noite de lua cheia, no mês de outubro. Lá estavam os três inseparáveis amigos, X, Y e Z. Eram todos jovens, Y tinha 23 anos e estava desempregado, sua única ocupação era sair e conversar com esses seus dois amigos. Suas únicas companhias eram seu violão, X e Z, dos quais ele gostava muito. X tinha 22 anos era namorado de Z, uma garota de 24 anos, ambos também desempregados, mas moravam juntos. Já eram amigos há bastante tempo, cerca de sete anos. Y morava sozinho. Tinham muitas coisas em comum: nenhum dos três tinha parentes na cidade, seus pais estavam mortos, não tinham outros amigos. O mundo dos três era um mundo à parte.
Eles moravam em uma cidade no interior de Minas Gerais, chamada β. Não tinham muito o que fazer lá, mas lá viviam, assim mesmo. Tinham muitos planos em comum, viajar, conhecer lugares e pessoas iguais a eles...
Nessa noite, discutiam política e economia, entre outras coisas. Já estavam juntos desde cedo, quando Y foi a casa deles, por volta das 10 da manhã. Já dava 11 da noite, e pelo visto, não sairia de lá tão cedo.
Discutiam desigualdade social, quando um deles levantou a questão de que se um pobre, ou miserável, matar um rico, para rouba-lo, deve ser perdoado. Depois de discutirem este assunto por algum tempo, lhes veio à memória uma velha senhora, de uns 50 ou 60 anos, que fez fortuna a partir da exploração de trabalhadores, e que vivia numa cidade vizinha. Então um deles perguntou aos demais se teriam coragem de matar essa velha, e roubar o que ela tinha em casa. Os outros responderam que sim, que tinham coragem, ele duvidou e afirmou ser capaz de fazê-lo sem o menor remorso. Por essa noite o assunto morreu.
Dois dias depois, ao se encontraram novamente. Acabaram por decidir que poderiam fazer isso, e se puseram a planejar o latrocínio. Visitaram a cidade onde a velha morava, ficando lá três dias. Ficavam algumas horas por dia próximos a casa da velha, para planejar melhor a ação.
Juntaram algum dinheiro e compraram um furgão velho, que seria usado para ir até lá e na fuga.
Na segunda quinzena do mês de novembro, resolveram botar o plano em prática. Saíram da casa de X e Y à 1 hora da manhã. Chegaram no local às 2. Entram na casa quando a velha estava dormindo. Amarraram e amordaçaram-lhe, para que não gritasse, nem fugisse. Usaram um facão, muito bem amolado para mata-la. Antes do golpe fatal, e único, Y percebeu que a velha chorava e tremia muito (imagem que não lhe saiu mais do espírito), virou-se pra ela e disse:
_ Você não imagina o quanto isso é difícil para nós. Por favor, perdoe-nos, não temos escolha. – nisso X deu o golpe mortal.
Eles tinham preparado tudo muito cuidadosamente. Levaram lona com a qual forraram ao chão, para que não sujasse de sangue; a porta não foi arrombada, Z e Y estudaram técnicas para abrir fechaduras; antes de matá-la, obrigaram-na deixar um recado na secretária eletrônica, onde dizia que viajaria, sem data para regresso. Seu corpo foi picado cuidadosamente e colocado dentro de um saco plástico, que foi acomodado no furgão, para que posteriormente se desse um fim a ele. Além disso, todos usavam luvas.
Pegaram tudo que tinha de valor e podia ser carregado, principalmente dinheiro e jóias, as mais comuns o possível. Por volta das três da manhã saíram, sem ser vistos por ninguém.
No dia seguinte, já na estrada, tentavam não falar sobre o fato, mas era necessário se dar um fim ao corpo. Decidiram inicialmente enterra-lo em um lugar bastante afastado e isolado, mas Z teve uma idéia melhor: Se desfazerem do furgão, e comprarem outro veículo. Combinaram o local: um precipício a alguns km da pista. X foi comprar uma camionete nova, Z e Y encheram o tanque e compraram um galão extra de gasolina.
Depois de tudo feito, se encontraram no lugar combinado. Jogaram o furgão com o corpo da velha no precipício. Ao cair, logo explodiu. Não sobrou nada, exceto as lembranças.
Foram então para o sul, para o interior do Paraná, onde compraram uma casa grande e bastante bonita. Dois meses depois da morte da velha, na cidade onde ela vivia, ninguém sabia o que lhe tinha acontecido. Estaria tudo bem, se não fossem as lembranças e pesadelos que os atormentavam, principalmente a Y. Este não podia ficar sozinho por muito tempo que sentia pavor de si mesmo.
Com tudo o que aconteceu, a amizade deles foi ficando cada vez mais forte. Y ensaiou namoro com varias garotas, mas nenhuma delas se encaixava no mundo deles, pois aquela casa, para eles, era um outro mundo, eles viviam em um mundo à parte. Y estava cada vez mais necessitado dos dois, não os deixando quase nunca.
Finalmente Y encontrou a mulher certa: A era uma mulher muito bonita, de 22 anos, que logo que os conheceu, se identificou muito com eles, principalmente com Y, com quem começou a namorar, vindo a se mudar para aquela casa poucas semanas depois.
Tudo parecia muito bem. Mas só parecia. Y não conseguia ficar sozinho hora nenhuma. Às vezes, sem mais nem menos, começava a chorar e, em seguida, desatava a rir. Ninguém compreendia isso, mas não comentavam nada. A estava muito triste com o estado de espírito Y. Z e X tentaram tudo o que podiam para trazer o bom e velho Y de volta, mas não conseguiram, já era muito tarde. Ele havia escondido isso o quanto pôde.
Algumas semanas depois de terem percebido a gravidade da situação, parecia que todos estavam seguindo o mesmo caminho de Y, principalmente A.
Y, de uma hora pra outra disse a A que iria se matar, ao que ela respondeu que o seguiria aonde ele fosse, ainda que na morte. Ele ficou assustado, e não falou mais nisso.
Mas algumas semanas depois,Y cumpriu a ameaça, se matando com um tiro na nuca. A, que estava entrando no quarto, viu e ficou desesperada. Depois de chorar por muito tempo, pegou a arma usada por Y e, cumprindo sua promessa, se matou também, da mesma forma, abraçada a ele.
X e Z haviam saído para procurar um medico, psiquiatra ou psicólogo que pudesse ajudar Y. Chegaram em casa no fim da tarde, com uma consulta marcada para ele, na manhã do dia seguinte. Estranhando o silencio foram procurar por Y e A, que foram encontrados abraçados, rotos colados, numa poça de sangue. Eles ficaram desesperados, não conseguiam entender o que havia acontecido. Chamaram a policia.
Depois ficaram sabendo que Y havia se matado, e A quando descobriu, ficou desesperada, chorou muito e depois se matou também.
Z e X ficaram muito tempo trancados em casa, não conseguindo sair nem se divertir. Comiam pouco, dormiam quase nada. Três meses depois venderam a casa e compraram outra menor. Passaram mais alguns anos, perseguidos pela lembrança desse período negro de suas vidas. Três anos depois da morte de Y e A, X ficou doente, padecendo física e mentalmente durante quase seis meses. Morreu de forma triste e penosa. Z durou muito pouco tempo a mais que X, definhando com tanto sofrimento, primeiro de Y e A e depois de X. Entrou em depressão, e se matou dois meses depois da morte de X.
(Lomeu)
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